Dois cartões postais de Dourados: um recebe investimento, o outro, apenas buracos

Enquanto o aeroporto ganha obras e atenção, a rodoviária, casa do povo que não tem dinheiro para voar, segue com o pátio destruído e esquecido por quem deveria cuidar

Tem coisa que a gente passa todo dia e vai acostumando. Vai normalizando. Até que alguém de fora chega e pergunta: “isso aqui é assim mesmo?” É aí que bate aquela vergonha que já deveria ter batido faz tempo.

A Rodoviária de Dourados é exatamente assim. O Terminal Rodoviário Municipal Renato Lemes Soares, para quem gosta do nome oficial, é o cartão de visita para centenas de passageiros que chegam todo dia à segunda maior cidade de Mato Grosso do Sul. E a recepção é um asfalto moído, cheio de crateras que já cansaram de receber remendo. Aliás, já passou da fase do remendo há anos.

O choque de quem vem de fora

Quem roda o Brasil inteiro nota a diferença na hora. Um motorista de fora foi direto ao ponto: inadmissível uma cidade do porte de Dourados ter uma entrada dessas. Outro, rodado de norte a sul do país, colocou o trecho da rodoviária na lista dos piores que já viu na vida.

Mas o pior balde de água fria foi o de um visitante que acompanhava a rotina do município pelas redes sociais, área em que o prefeito é muito forte. Ele seguia o perfil do gestor e via todo aquele papo de reforma, troca de malha viária, pintura e até roçada com o prefeito ali, mostrando a mão na massa. O homem chegou animado, esperando ver aquele ritmo de progresso, mas deu de cara com o pátio esquecido e a ilusão acabou: “Dourados está bonita no contorno, mas até adentrar aqui. Aí o que é bom e bonito se apaga com este cenário”, desabafou. Mas o visitante ainda foi elegante e emendou: “É algo triste, mas tenho plena convicção que o prefeito e sua gestão vão transformar isso.” A gente espera que sim. Se transformar, a reportagem volta aqui para mostrar.

O pátio invisível (e o silêncio entre as secretarias)

O problema ali é aquele velho ciclo vicioso: choveu, o tapa-buraco vai embora na enxurrada e o dinheiro público some junto. Uma rotina cara que não resolve nada. E como aquele trecho é restrito aos ônibus, a população que mora na cidade não passa por ali. O problema fica escondido de quem vive aqui, mas escancarado para quem chega carregando mala.

Em março, a prefeitura até abriu licitação para reformar o prédio — telhado, paredes, a parte interna. Fizeram o básico para constar no relatório e pararam. E é aí que entra a ironia que não dá para engolir.

A SEMSUR está ali, instalada dentro da rodoviária. Fica a pergunta no ar: será que não há diálogo entre secretários? Da janela do gabinete do secretário dá para ver o pátio perfeitamente — claro, se alguém se der ao trabalho de abrir as cortinas. Será que o titular da pasta não liga para o colega da Secretaria de Obras, que é o verdadeiro responsável pela manutenção asfáltica da cidade, para avisar que o chão está desabando? Ou será que ninguém se fala no primeiro escalão? O detalhe é que a entrada da SEMSUR é pela Avenida Marcelino Pires… e lá, veja você, não tem um buraco para remédio. O descaso não está escondido em um bairro distante da periferia. Está embaixo do nariz de quem governa.

Cento e cinquenta metros de distância

A Câmara Municipal fica logo ali, a cento e cinquenta metros. Se um vereador resolvesse caminhar até a rodoviária, não gastaria dois minutos. Mas parece que nenhum dos nossos nobres fiscais teve curiosidade de fazer esse trajeto a pé.

Vale o aviso, caso tenham esquecido: o pátio da rodoviária é do município. Pode ser fiscalizado e receber indicações de melhoria como qualquer rua da cidade. Não é propriedade privada, é patrimônio público.

A rodoviária não atende quem viaja de classe executiva ou pega voo direto. É a casa de quem acorda cedo, junta o dinheiro da passagem suada para trabalhar, tratar da saúde ou visitar a família em outra cidade. É o chão de quem não tem outra opção de transporte, e essa gente merece o mesmo respeito que uma grande avenida do centro.

Enquanto isso, as obras do novo terminal do aeroporto voam a todo vapor, cheias de verba e atenção. Quem usa avião geralmente tem escolha; quem depende da rodoviária, não. A prefeitura precisa olhar para o pátio de ônibus com o mesmo entusiasmo que olha para a pista de pouso.

Os vereadores fariam um grande favor à cidade se interrompessem a sessão por uns dez minutos para dar uma volta pelo pátio. Sem carro oficial, sem assessor segurando pasta. Só eles, os sapatos e os buracos, no meio dos passageiros comuns.

Menos maquiagem, mais asfalto

O prefeito Marçal Filho tem mostrado serviço e disposição para tocar obras pela cidade, e isso é justo reconhecer. Justamente por isso, a rodoviária precisa entrar na pauta séria. Não como um tapa-buraco eleitoreiro para durar até a próxima chuva, mas com asfalto novo, estruturado, do tamanho que Dourados exige.

Dourados não é cidade de segunda linha, mas o pátio da rodoviária faz o município parecer abandonado para qualquer um que desembarca.

Seria ótimo se o prefeito fizesse uma visita surpresa ao local. Mas não de carro, porque no banco estofado a gente desvia dos solavancos sem nem notar. Tem que ser a pé, sentindo o chão, no ritmo de quem chega de viagem arrastando mala e tentando acreditar que desembarcou em uma cidade que realmente se cuida.

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