Denúncia na Tribuna: Vereador expõe negligência grave na UPA de Dourados e fratura de fêmur tratada como “Ficha Verde”

DOURADOS (MS) — Um pronunciamento contundente do vereador Franklin Schmalz na tribuna da Câmara Municipal acendeu um alerta vermelho sobre a situação da saúde pública na maior cidade do interior de Mato Grosso do Sul. Em um discurso emocionado e indignado, o parlamentar leu a carta de uma mãe que relata uma sucessão de erros, negligências e intimidações sofridas por sua família dentro da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Dourados.

O caso envolve um menino que, após sofrer uma queda, foi levado às pressas para a unidade de saúde com o fêmur fraturado — o osso mais longo do corpo humano — e acabou sendo classificado como um caso sem urgência. O episódio ocorre em um momento delicado, em que a saúde municipal passa por um período de transição em sua gestão, gerando dúvidas na população sobre os rumos do atendimento público.

O Relato do Descaso: Do Erro de Triagem à Recusa de Atendimento

De acordo com o depoimento lido pelo vereador, o calvário da família começou logo na triagem da UPA. Mesmo diante do choro incessante da criança e do inchaço visível na perna, o atendimento classificou o paciente com a “ficha verde” (destinada a casos não urgentes).

Buscando respostas pela demora e o sofrimento do filho, a mãe tentou atendimento na Unidade Básica de Saúde (UBS) Idelfonso Pedroso. No entanto, a resposta que recebeu foi uma recusa: a médica de plantão teria se negado a atender a criança sob a justificativa de que “já tinha batido a cota de atendimento do dia”.

Após retornar à UPA por conta do desespero e da piora no quadro do filho, o diagnóstico real finalmente apareceu: fêmur fraturado. A gravidade do ferimento expôs o erro crasso na classificação de risco inicial. A criança permaneceu nos corredores da UPA, sofrendo com dores agudas enquanto aguardava uma vaga hospitalar.

Capacidade da Triagem e o Perigo do Diagnóstico a “Olho Nu”

O erro na avaliação do menino levanta questionamentos profundos sobre o funcionamento técnico das unidades de urgência da cidade. Fica a pergunta que ecoa na mente de quem depende do SUS: será que a equipe da triagem está tendo a capacidade e o preparo necessários para atuar neste momento? A triagem é a porta de entrada e o filtro que define prioridades de vida. Diante de um quadro gravíssimo de fratura, cabe questionar: como diagnosticar uma pessoa a olho nu, ignorando sintomas claros de trauma físico e a dor expressada pelo paciente? A ausência de uma avaliação criteriosa e de exames imediatos coloca em risco a integridade física dos cidadãos que buscam socorro.

Guarda Municipal Acionada Contra a Família e Histórico de Falhas

O ponto de maior indignação no discurso do vereador ocorreu quando a mãe relatou a reação da equipe da UPA ao ser questionada sobre o erro. Em vez de acolhimento ou suporte ortopédico imediato, a direção da unidade teria acionado a Guarda Municipal para conter os protestos da mãe.

“Sabe qual foi a resposta da UPA de Dourados? Eles chamaram a Guarda Municipal para me intimidar, em vez de chamarem um ortopedista, uma ambulância ou darem medicação para a dor de uma criança”, desabafou a mãe na carta lida por Schmalz.

Moradores locais e usuários do sistema reforçam que esses erros vêm sendo cometidos não é de hoje. O acúmulo de reclamações sobre lentidão, falhas de diagnóstico e falta de humanização reflete um problema crônico na rede municipal de saúde, que se arrasta por diferentes períodos e gestões.

Uma Crítica Construtiva: Que se Acenda um Alerta

Este caso não deve ser tratado de forma isolada, mas sim como uma crítica construtiva para que acenda um alerta urgente nas autoridades e novos gestores da saúde de Dourados. O período de transição pelo qual a saúde do município passa exige atenção redobrada para que falhas estruturais antigas não continuem se repetindo.

A expectativa é que o episódio sirva para reavaliar os protocolos de triagem, reforçar o treinamento das equipes de atendimento e garantir que a dor da população receba o respeito e a agilidade que a lei e a dignidade humana exigem.

O espaço segue aberto para os posicionamentos oficiais da direção da UPA de Dourados, da Secretaria Municipal de Saúde e da Guarda Municipal a respeito das condutas apontadas no relato.

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