Por trás da necessária e luxuosa reforma do Ulysses Guimarães, burocracia excessiva e falta de critérios claros ameaçam as ligas comunitárias e os projetos sociais que sustentam a base da cidade.
Por [Seu Nome/Editoria de Esportes]
Dourados, MS
Quem acompanha os bastidores do esporte douradense sabe que o chão de taco e as arquibancadas do Ginásio Municipal Ulysses Guimarães contam a história da nossa gente. Por isso, ver o espaço reaberto após mais de três anos de portões fechados trouxe um alento legítimo. A revitalização, custeada com R$ 4,6 milhões do Governo do Estado e R$ 1,2 milhão de contrapartida do município, transformou o complexo. Saíram as infiltrações e o descaso; entraram rampas de acessibilidade total, piso modular moderno, iluminação em LED e corrimãos com leitura em Libras.
Até aí, uma vitória incontestável da comunidade. Zelar por um patrimônio que custou quase R$ 6 milhões aos cofres públicos é obrigação do Estado e desejo de qualquer cidadão. O problema começou logo no dia seguinte à festa de reinauguração, quando o Diário Oficial publicou o Decreto Municipal nº 691.
Homologada pela Fundação de Esportes de Dourados (Funed), a nova peça jurídica trouxe consigo um regimento interno engessado, que acendeu o sinal de alerta em quem faz o esporte de base acontecer na raça.
Da festa ao boleto: o peso das novas taxas
O novo regulamento joga um balde de água fria no calendário esportivo local. Para eventos não esportivos sem bilheteria (como festivais e encontros institucionais), a taxa de uso foi fixada em R$ 5.000,00 por dia. Se houver cobrança de ingresso, como em shows musicais, o valor salta para R$ 10.000,00 diários.
Para grandes produtoras ou eventos de perfil puramente comercial, essa planilha de custos é perfeitamente absorvível. A grande miopia do decreto é aplicar o mesmo rigor técnico, burocrático e financeiro para quem organiza a copa de futsal da vila, o torneio estudantil ou o campeonato beneficente de fim de semana.
As ligas de bairro e os projetos sociais de Dourados são mantidos por voluntários. Não há CNPJ robusto, departamento jurídico para emitir laudos complexos ou verba para contratar firmas particulares de segurança. Tratar o organizador comunitário com a mesma régua de uma multinacional do entretenimento é, na prática, inviabilizar o esporte amador.
O reflexo dessa política restritiva já vinha dando sinais na cidade. Recentemente, a equipe do Handebol Dourados soltou uma dura nota de repúdio contra taxas semelhantes aplicadas no complexo Jorjão — onde o treino passou a custar R$ 43,96 por hora (sem luz) e R$ 73,27 (com iluminação), além da exigência de doação de materiais de manutenção. O descontentamento das atletas escancarou uma tendência perigosa da gestão: transferir para o bolso do esportista o custo de manutenção que deveria ser coberto pelo imposto que ele já paga.
Cadê o incentivo? O custo de carregar o nome de Dourados no peito
Como comentarista, o ponto que mais me indigna nessa história é o total desamparo às equipes que elevam o nome da nossa cidade. É comum vermos nossos atletas locais precisando usar o espaço do ginásio para treinar duro, focar na preparação e ajustar a tática antes de viajar para competições fora do município. Eles vão para outras regiões representar com orgulho o nome de Dourados, muitas vezes arcando com transporte e inscrição do próprio bolso.
Aí vem a pergunta que não quer calar: como a administração municipal tem a coragem de cobrar taxa de hora/treino dessas equipes dentro da própria casa deles? Onde está o incentivo do poder público municipal se até para se preparar para defender a bandeira da cidade o atleta encontra um boleto como barreira? Em vez de estender o tapete vermelho e dar estrutura para quem leva o nome de Dourados para os pódios, o regimento cobra a conta de quem já não tem apoio.
O perigo do “Elefante Branco” moderno
A diretora-presidente da Funed, Sandra Giselly do Amaral, defende as regras argumentando a necessidade de preservar a estrutura e garantir segurança jurídica e física aos usuários. O argumento é válido, mas peca na dosagem.
Minha preocupação é imediata: corremos o risco real de ter um ginásio lindo, moderno, perfeitamente iluminado… e completamente vazio. Se as exigências sufocarem o campeonato de futsal dos amigos ou a escolinha de bairro, o Ulysses Guimarães vai virar um “elefante branco” de luxo, operando muito abaixo de sua capacidade.
O esporte de Dourados não respira por meio de grandes eventos corporativos. Ele pulsa na periferia, na partida que tira o jovem da ociosidade no período vespertino, no torneio que integra as famílias nos fins de semana.
“O poder público deveria nos incentivar, não engessar”, desabafou uma liderança do esporte social da cidade sob condição de anonimato. “Ninguém é contra cobrar de grandes shows particulares. O que queremos é o reconhecimento de que nós, dos projetos sociais, fazemos o trabalho de base que deveria ser do próprio município, e de graça.”
O erro crucial da Funed foi soltar o decreto sem que a regulamentação das isenções estivesse pronta. O texto até prevê gratuidade ou parcerias para eventos beneficentes, mas não diz como, quando ou sob quais critérios. Sem regras claras e públicas, as entidades ficam reféns de uma análise “caso a caso”, que depende puramente de agendamentos informais e da boa vontade política da vez. Quem trabalha com calendário esportivo sério não pode jogar no escuro.
O papel da Câmara e a urgência de uma saída
Diante do impasse, o caminho agora aponta para o legislativo. Clubes amadores e ligas estudantis articulam um movimento para que a Comissão de Esporte da Câmara Municipal de Dourados convoque uma audiência pública urgente. É preciso trazer a Funed e a comunidade esportiva para a mesma mesa antes que o regimento vire uma barreira intransponível.
Ninguém defende a falta de regras ou o vandalismo. A saída é simples e passa pela proporcionalidade:
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Exigência máxima para eventos comerciais de grande porte;
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Caminho desburocratizado, ágil e isenção garantida para treinos de equipes representativas oficiais e projetos que promovem o esporte formativo, social e sem fins lucrativos.
A prefeitura e a Funed precisam entender, o quanto antes, que o sucesso de uma reforma não se mede pelo brilho do verniz do piso modular, mas sim pela quantidade de jovens e atletas locais que estão treinando e jogando nele. Dourados não precisa de um monumento intocável; precisa de uma arena viva.









