CRÔNICA POÉTICA — Quando o Coração Volta Antes da Gente

Há memórias que não envelhecem. Elas apenas se escondem um pouco, como quem espera a coragem da gente florescer de novo.
E há lugares que não se afastam — a gente é que tenta seguir, mas descobre, cedo ou tarde, que deixou um pedaço do próprio peito para trás.

Para muitos de nós, esse lugar tem nome, cheiro, cor e história:
a antiga Fazenda Itamarati, que hoje é o querido Distrito Nova Itamarati, em Ponta Porã.
Ali, onde tantos de nós demos os primeiros passos, fizemos a primeira escola, aprendemos a dividir brinquedos e sonhos, e — por que não dizer? — vivemos até o primeiro amor, daquele jeito inocente, puro, que marca mais do que o tempo consegue apagar.

Foi essa saudade apertada que me pegou de jeito um dia, lá em 08 de dezembro de 2016.
Eu, Marcinho — o “Bananinha” — junto com meu amigo Wilson Sanguina, senti que não dava mais para deixar a memória dormir sozinha.
Precisávamos reencontrar o povo que caminhou com a gente quando o mundo ainda era simples e enorme ao mesmo tempo.

E assim nasceu o primeiro encontro.
De maneira tímida, quase improvisada, mas com uma força que só a verdade tem.
E desde então, ano após ano, essa reunião vem acontecendo, crescendo devagar, mas firme, como uma árvore que conhece seu chão

Hoje, esse encontro é cuidado com carinho por Claudio Gamarra, Altair e Firmino, que abraçaram essa missão como quem recebe um tesouro de família.
Eles carregam a responsabilidade com alegria, com respeito e, principalmente, com amor por essa história que é de todos nós.

E eu quero dizer aqui, com o coração sincero:
em nome do Claudio, do Altair e do Firmino, agradeço a cada pessoa que ajuda, colabora, apoia, oferece tempo, gesto, palavra ou sorriso para que esse evento cresça a cada ano.
Nada disso existiria sem vocês.

E então chega o dia.
No 14 de dezembro de 2025, às 8h da manhã, quando o sol tocar de leve a terra da Estância Vidal, tudo recomeça.
E falar da Estância Vidal é falar de família — da generosidade do Pedro Vidal, da doçura acolhedora da Eliana, e dos irmãos Vidal, anfitriões que carregam a memória da Fazenda Itamarati como se segurassem no colo uma criança adormecida.

Eles não apenas recebem.
Eles guardam.
Eles mantêm viva a chama que insiste em não se apagar.

O campo abre espaço para o Futebol Suíço festivo, que não é só esporte — é a infância voltando a correr, é o passado pedindo para brincar mais uma vez.
Depois vem o almoço, marcado por risadas, reencontros e aquele cheiro que alimenta muito mais do que o corpo.
As trucadas surgem como um rito antigo, e as resenhas… ah, as resenhas…
Nelas a gente ri, mas também se vê — criança, jovem, adulto — tudo misturado num só tempo.

E como sempre, tem música boa, música que não toca apenas no ouvido: toca onde a palavra não alcança.
É ela que ajeita o coração no lugar certo.

E entre tantas lembranças, há duas que nunca se apagam:
Seu Olacyr de Moraes, o visionário que acreditou e plantou sonhos onde antes só havia silêncio.
E o querido Dr. Nomura, presença firme, humana, respeitada.

Hoje eles estão com Deus, como muitos de nossos amigos/as também estão, mas eu sei — todos nós sabemos — que neste dia eles descem um pouquinho, sentam na beira da memória e sorriem ao ver que aquilo que começaram continua vivo, bonito e de pé.

Agora, deixa eu falar com você — justamente você, que morou na Fazenda Itamarati e ainda não voltou.

Vem. De coração, vem.
Volte para o lugar onde a sua história começou a andar com as próprias pernas.
Volte para reencontrar quem dividiu a escola, o campinho, a rua de chão, o leite gelado, a gargalhada solta.
Volte para sentir o abraço que ficou faltando, o abraço que talvez você nem soubesse que precisava tanto.

A gente que era criança hoje tem rugas, cansaços, cabelos embranquecendo…
Mas também tem uma saudade tão grande, tão funda, tão viva, que às vezes chega a doer.
E não existe presente mais valioso do que abraçar um amigo envelhecido que guarda dentro de si um pedaço seu — um pedaço que o tempo nunca levou.

Volta.
Enquanto dá tempo.
Enquanto as histórias ainda têm voz.
Enquanto os braços ainda sabem se abrir.

Porque no fim das contas, quando os abraços acontecem e os olhos brilham,
não é uma festa que renasce —
é a própria Itamarati voltando inteira para dentro da gente.

Se alguém que participou dos eventos e tiverem fotos, se puder me enviar pra montarmos uma galeria.

67 999088772 whatsapp Marcinho

Deixe seu comentário