Nova lei ou falta de gestão? Programa “Nossa Dourados” reacende debate sobre eficiência administrativa

Mesmo com leis em vigor há mais de 20 anos, município cria novo programa para adoção de espaços públicos e levanta questionamentos sobre execução e excesso de normas

A administração pública, em muitos casos, acaba criando soluções para problemas que já possuem respaldo jurídico há anos. Em Dourados, a aprovação do programa Nossa Dourados, encaminhado pelo prefeito Marçal Filho, reacende esse debate. A proposta busca incentivar empresas a adotarem praças e canteiros da cidade.

É preciso reconhecer que a atual gestão teve um gesto positivo ao lançar o programa, ao buscar incentivar parcerias para o cuidado dos espaços públicos. No entanto, há um ponto que não pode ser ignorado: essa ideia não é nova. Ela já havia sido estruturada há mais de 20 anos, em legislações criadas em gestões anteriores.

Na prática, o caminho poderia ter sido mais simples e eficiente. Bastaria atualizar e regulamentar as leis já existentes, adaptando-as à realidade atual, em vez de criar um novo programa baseado no mesmo princípio.

Diante disso, surge a questão central: era realmente necessário criar uma nova lei ou faltava apenas aplicar melhor as que já existem?

O que a legislação já previa

Ao contrário do que pode parecer, Dourados já conta há décadas com normas que permitem esse tipo de parceria. A Lei nº 3.090/2007, sancionada pelo então prefeito Laerte Tetila, estabelece que empresas podem assumir desde a manutenção de áreas verdes até a instalação de equipamentos urbanos, como iluminação e estruturas de lazer. Em contrapartida, a legislação garante o direito à divulgação da marca no local, associando a empresa à melhoria do espaço público.

Antes disso, a Lei nº 2.373/2000, de autoria do vereador Akira Oshiro, já tratava da adoção de canteiros centrais e rotatórias. Ou seja, o município já possuía instrumentos legais suficientes para viabilizar esse tipo de cooperação entre poder público e iniciativa privada.

Quando o excesso de leis atrapalha

A criação de normas que tratam de temas já regulamentados pode gerar o chamado excesso legislativo. Na prática, isso confunde empresários, dificulta a atuação da própria administração e enfraquece a segurança jurídica do município.

Sem clareza sobre a integração ou revogação das leis anteriores, quem deseja investir ou colaborar com a cidade fica diante de um cenário incerto. Enquanto isso, problemas básicos seguem sem solução, e a burocracia avança mais rápido do que a manutenção dos espaços públicos.

Diante disso, é inevitável um questionamento mais direto às comissões permanentes da Câmara Municipal. Não se trata de mera formalidade: é obrigação técnica revisar o ordenamento jurídico antes de permitir o avanço de novos projetos. Ignorar leis já existentes sobre o mesmo tema ou deixar de apontar, de forma expressa, quais dispositivos estão sendo revogados ou substituídos não é um detalhe, é uma falha que compromete a qualidade da legislação produzida.

A função das comissões não é apenas dar andamento aos projetos, mas evitar exatamente esse tipo de sobreposição. Quando esse papel é negligenciado, o Legislativo contribui para um cenário de desorganização normativa, onde se legisla muito, mas se resolve pouco.

Mais gestão, menos papel

No fim, o que está em discussão vai além da criação de uma nova lei. Trata-se da capacidade da gestão pública em transformar normas em resultados concretos para a população.

Uma cidade mais organizada e acolhedora não depende apenas de novos programas, mas da execução eficiente do que já está previsto. Quando as parcerias funcionam, o empresário ganha visibilidade, o poder público otimiza recursos e a população passa a usufruir de espaços mais cuidados.

A expectativa é que o programa Nossa Dourados não se torne apenas mais um texto legal, mas represente, de fato, uma mudança na forma de gerir a cidade. Para o cidadão, o resultado esperado é simples: ruas limpas, praças bem cuidadas e um ambiente urbano mais digno.

Mais do que criar novas leis, Dourados precisa fazer valer as que já existem. Porque, no fim, o que a população espera não está no papel, mas no resultado visível no dia a dia.

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