Água negada e dignidade ferida na Reserva Indígena de Dourados

A Reserva Indígena de Dourados voltou a ser cenário de anúncios oficiais que prometem enfrentar a histórica crise no abastecimento de água. A assinatura da ordem de serviço para a perfuração de dois superpoços, com captação no Aquífero Guarani, foi apresentada como avanço significativo. No cotidiano das aldeias, entretanto, a realidade segue marcada por torneiras secas, improvisos e uma população submetida à escassez permanente.
A falta de água na Reserva não é recente nem imprevisível. Trata-se de um problema estrutural, conhecido e documentado há mais de uma década. O crescimento populacional acelerado, aliado à ausência de investimentos contínuos e planejamento técnico adequado, levou o sistema ao colapso. O que antes era uma dificuldade pontual transformou-se em uma crise crônica.
Hoje, milhares de indígenas vivem sem abastecimento regular. Há famílias que passam meses — e em alguns casos mais de um ano — sem água encanada. Crianças frequentam escolas onde o acesso à água é limitado. Idosos enfrentam temperaturas elevadas sem garantia mínima de consumo. Mulheres recorrem diariamente ao transporte manual de água para assegurar o básico dentro de casa. A escassez compromete a saúde, a higiene, a alimentação e a dignidade.
Em anos eleitorais, a crise hídrica da Reserva costuma ganhar visibilidade institucional. Promessas de solução surgem de diferentes esferas de poder — federal, estadual e municipal — acompanhadas de anúncios, agendas oficiais e compromissos públicos. No entanto, na avaliação da comunidade, essas iniciativas raramente se convertem em ações estruturais duradouras, reforçando a percepção de que a atenção dada ao problema não se mantém com a mesma intensidade fora do calendário político.
Conforme apontam denúncias e análises do Jornalista Dr. Wilson Matos, trechos – Diário Indígena que fundamentam esta matéria, o problema não se restringe à captação. Nos últimos anos, ao menos cinco poços foram perfurados na Reserva, alguns com vazão considerada suficiente. Ainda assim, a água não chega às residências. O principal entrave está na rede de distribuição, antiga, deteriorada, com vazamentos constantes e sem manutenção adequada.
Investir exclusivamente em novos poços, sem a reconstrução integral da rede, repete uma estratégia que já demonstrou limitações. A ausência de um projeto sistêmico compromete a eficácia das intervenções e prolonga a dependência de soluções emergenciais.
O contraste com áreas vizinhas à Reserva evidencia desigualdades históricas. Enquanto comunidades indígenas enfrentam escassez severa, empreendimentos urbanos no entorno avançam com infraestrutura moderna e abastecimento regular. A diferença no acesso à água expõe prioridades institucionais e aprofunda o sentimento de exclusão vivido pelas aldeias.
A exclusão da Reserva Indígena do projeto hídrico da Itaipu Binacional acentuou a insatisfação da comunidade. Mobilizações que reivindicavam acesso à água foram marcadas por episódios de repressão, com registro de feridos, incluindo mulheres, idosos e crianças. Os fatos reforçaram a percepção de que demandas básicas seguem sendo tratadas com respostas inadequadas.
As medidas emergenciais adotadas ao longo dos anos — como caminhões-pipa, caixas d’água e poços provisórios — não solucionaram o problema. Funcionam como contenção da crise, sem enfrentar suas causas estruturais. O anúncio de novas obras, sem a apresentação de um plano completo, transparente e com definição clara de responsabilidades, mantém a insegurança das famílias.
Ainda não há informações públicas suficientes sobre a manutenção do sistema, a substituição da rede de distribuição, o modelo de gestão ou os custos futuros para os moradores. A possibilidade de cobrança pelo consumo, sem a garantia prévia de abastecimento regular e infraestrutura adequada, amplia as preocupações da comunidade.
Outro ponto sensível é a ausência de consulta ampla, livre e informada às comunidades indígenas, conforme estabelece a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Projetos e decisões têm sido apresentados de forma unilateral, limitando a participação efetiva de quem será diretamente impactado.
Para os povos indígenas da Reserva de Dourados, a água não é favor institucional nem promessa circunstancial. É direito humano fundamental. A superação da crise exige um projeto integral, que contemple captação adequada, reconstrução total da rede, manutenção contínua, gestão transparente e controle social.
Enquanto isso não ocorre, cada novo anúncio segue distante da realidade vivida nas aldeias. A dignidade não se restabelece com solenidades, mas com água chegando às torneiras, de forma regular, segura e permanente.

 

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